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Vendo
a produção de roteiros por aí, não posso
deixar de me surpreender com a quantidade de lugares comuns. E olha
que não estou me referindo apenas a produções
independentes de fanzines e fanficts, mas também àquelas
produções ditas profissionais que possuem recursos
para pagar bons roteiristas.
O
que está acontecendo? Porque quase todos recorrem ao famigerado
"escolhido", aquele que irá salvar o mundo da destruição
com sua mensagem de coragem e força? Porque quase todos recorrem
à solução fácil do Mal 100% mau e do
bem 100% bom?
Acredito
na força do herói mítico, escolhido para liderar
seu povo e vencer obstáculos absurdos. Essas histórias
são contadas desde que o homem é homem e nos a juda
a ter força e a nos inspirar a enfrentar dificuldades diárias
e manter a unidade cultural. Não o menosprezo de forma alguma
e entendo sua função social. De Jesus à Hércules,
de Sidarta a Moisés, não importando se não
relatos veríticos ou fictícios, todas as narrativas
míticas têm grande força em suas mensagens e
até hoje nos ajudam a compreender e superar melhor o mundo
em que vivemos.
No
entanto, muito me espanta que tantos roteirista não procurem
extrapolar o óbvio. Quer falar do herói? Tudo bem,
afinal todos sabemos que a história do herói é
boa, mas ela já foi escrita, explorada, reinventada, mudaram
seu uniforme, mataram-lhe os entes queridos, fizeram-no ter um pacto
com o demo, jogaram um monte de mulheres em seu colo, o impossível
já rolou com o infeliz arquétipo.
Espero
que entendam que eu não estou falando apenas de super-heróis
americanos, mas também de heróis do mangá,
heróis do cinema... fulanos que enfrentam com êxito
situações difíceis, enfim. Quem não
conhece dezenas de histórias de garotos transportados para
uma terra de fantasia? E aquela história do grupo de amigos
que precisa seguir uma jornada para salvar a paz no mundo? E os
guerreiros uniformizados que sempre falam o nome de seus golpes?
Sem falar do herói tímido que vê sua vida transportada
quando lindas garotas passam a lhe fazer companhia.
Mas
agora, que tal dar um pouco de dimensão a esse herói?
que tal explorar uma cultura complexa como pano de fundo? Que tal
desenvolver as relações afetivas do herói com
o mundo? Que tal conferir-lhe
humanidades e fraquezas, talvez até defeitos? Porque não
fragmentar a história? Porque não contá-la
através de pontos de vistas alternativos? Porque não
descontruir tudo e contar de trás para frente?
E
não é só com narrativas heróicas que
se percebe a crise que se abate sobre o universo criativo. A previsibilidade
sem sal está presente em comédias românticas,
em ficções científicas, em adaptações
históricas. Para onde quer que dirijamos nossas atenções,
a paisagem parece ser a mesma.

Abaixo a linha de montagem
Tudo
bem, admito que existe uma estrutura básica para se contar
qualquer história, que consiste em: [1] apresentar os personagens;
[2] apresentar o ambiente; [3] desenvolver a relação
entre os personagens e o ambiente; [4] apresentar um problema;[5]
crescer no problema até chegar ao ápice; [6] conduzir
até a solução dos fatos e ao encerrametno da
história. Mas mesmo essa previsibilidade pode ser trabalhada.
Os personagens geralmente são as vedetes, não sem
razão, uma vez que o carisma deles pode ser o único
elemento capaz de salvar uma história mala. Trabalhá-los
bem, seja no comportamento, seja na aparência, seja na relação
com os outros personagens, seja na relação dele com
seu íntimo
ou com seu desafio, pode deixá-lo mais interessante e profundo,
como por exemplo em Karekano - Kareshi Kanojo no Jijyo, de Masami
Tsuda, em que não existem heróis ou vilões,
mas onde todos os personagens são mostrados em sua qualidades
e fraquezas, despertando inevitavelmente nossa compaixão.
O
ambiente, muitas vezes levianamente deixado de lado, é um
elemento que pode dar muita força para a narrativa, seja
com excesso de referências e detalhes (Tolkien, por exemplo,
ambientou toda a sua obra num mundo com relevo definido, descrições
detalhadas de costumes e hábitos, árvores genealógicas
dos principais personagens, além de criar os idiomas!) seja
como apenas os detalhes básicos em uma história minimalista.
Uma sala sem móveis, portas ou janelas pode ser um cenário
incrível para Moëbius, que precisa sequer de palavras
para nos comover.
A
relação entre os personagens e entre os personagens
e o ambiente é outra coisa que pode render boas sacadas,
piadas originais, reforçar os dramas e, com isso, enriquecer
muito a história no geral. Aliás, essa é a
grande força de boa parte da obra de Will Eisner, que pode
ser sentida em New York a Grande Cidade.
O problema, dilema, impasse, obstáculo a ser vencido pelo(s)
protagonista(s) é outro elemento muito valorizado pelos roteiristas
e, não raro, acaba ganhando contornos grandiloqüentes
ao ponto de estragar a história, como uma melancia no pescoço
pode estragar a composição de uma roupa. No entanto,
para dizer a verdade, o problema nem precisa existir concretamente,
como por exemplo em Dom Casmurro, de Machado de Assis, em que uma
traição que não se sabe que aconteceu ou não
rendeu um dos romances mais incríveis de nossa literatura.
É
muito comum encontrar histórias de pessoas comuns que enfrentam
problemas medonhos, como Gen, pés descalços (Keiji
Nakazawa), que narra os horrores de um sobrevivente ao bombardeio
nuclear de Nagazaki. Mas também pode ser muito interessante
imaginar histórias de pessoas extraordinárias que
precisam enfrentar problemas risíveis, com em Morte, o preço
da Vida, do roteirista Neil Gaiman, em que a própria Morte
precisa viver um dia por ano na Terra como uma pessoa mortal para
desempenhar melhor seu papel nos dias restantes do ano.
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