| |
1-
Primeiramente, conte-nos um pouco sobre você. Quantos anos
tem, onde mora, no que já trabalhou e o que faz atualmente?
Hoje tenho 38 anos, sou casado há 3 anos, nasci e moro em
São Paulo. Desde garoto eu gostava muito de rabiscar. Aí
começou a sair alguns traços legais que eu coloria
com lápis de cor e mais tarde com guache, mas tudo era um
passatempo. Aos 15 anos comecei a trabalhar como ‘office-boy’
e depois entrei em uma empresa como auxiliar de almoxarifado, onde
comecei a ganhar um salário legal. Com isso, eu pude fazer
cursos de desenho básico, pintura e aerografia (meu preferido).
Essa foi minha rotina por dois anos: durante o dia carregava caixas
nos ombros enquanto a noite estudava, desenhava...Por fim finalizei
um curso de três anos em desenho publicitário na Escola
Panamericana de Artes. Quando eu me desliguei da empresa exercia
o cargo de Encarregado do Setor de Propaganda Marketing. Então
como ‘free-lancer’ comecei a fazer ilustrações
a lápis, aerografia, etc, para agências de propaganda.
Mais tarde, fiz ilustrações para uma empresa Italiana
que desenvolve brindes e troféus e lá eu aprendi muito
sobre textura de materiais como bronze, madeira, etc , pois todas
as amostras dessas peças eram desenhadas e pintadas a mão
para depois esculpirem o produto final. Em 96 e 97 lecionei desenho
e aerografia no Cepade (Centro Paulista de Arte & Design) e
desde essa época venho colorindo digitalmente para o mercado
nacional e internacional.
2-
Como surgiu seu interesse por quadrinhos e mais precisamente como
foi que você escolheu trabalhar com colorização?
Uma opção diferente do resto do pessoal, já
que boa parte quer ser desenhista, e se esquecem que existem outras
áreas como Colorista, letrista, arte finalista entre outras.
Não sei, acho que todos dessa estirpe já nascem assim,
não sabe nem ler, mas já aparece com uma revista na
mão em uma foto quando tem dois anos de idade. Sempre gastava
minhas moedas com gibis e quando era sobre um seriado ou desenho
da TV, com certeza eu comprava.
Em 1997, junto com um grupo de colegas, alugamos os fundos de uma
casa para trabalharmos, mas um era independente do outro. Um dia
eu peguei um trabalho que renderia um bom dinheiro e poderia envolver
todos. Era uma cartilha de 20 páginas para uma empresa chamada
Dana/Albarus. Todo o teste eu pintei em aquarela e ecoline, mas
a agência queria mídia digital. Estava tudo certo,
tínhamos desenhista, arte-finalista, letrista...Só
faltava o infeliz do colorista, pois nenhum de nós sabia
trabalhar bem com o Photoshop. Bem, o resultado vocês já
podem imaginar. Então comecei a descobrir sobre o programa
e tomar mais gosto pela colorização digital pois podia
fazer o que já fazia na prática e muito mais. Eu me
lembro que não existiam cursos de pintura digital como hoje
em dia, por isso eu tive que descobrir sozinho como usar o programa.
Criava os efeitos como se estivesse fazendo a mão, só
que em um tempo bem menor. Era legal pegar uma arte-final e colocar
todas aquelas cores e efeitos, ver o resultado final e as vezes
escutar “Você salvou o desenho”.
Em relação os artistas escolherem outras áreas
eu até entendo, pois você tem um retorno mais rápido.
A colorização é mais demorada, mas acreditem
o resultado é gratificante.
3- Para
quais editoras você já trabalhou?
Eu comecei colorindo os números 3 e 4 da revista “Spirit
of Amazon”, da NW Studio, em 1998. Esse foi o primeiro trabalho
profissional em uma HQ. Ainda pela NW Studio, eu fiz alguns trabalhos
(capas) com personagens da Hanna-Barbera e Looney Tones. Depois
disso, comecei a fazer revistas infantis para a Ópera Gráfica,
que só percebeu o meu talento quando mostrei o trabalho de
cores que eu fiz no Batman desenhado
pelo Marc Silvestri. A editora acabou publicando esse trabalho como
capa da revista “Comix Book Shop Magazine”, número
6 (começo de 1999).
Posteriormente eu fiz trabalhos para Mythos, Abril, Trama (Victory,
Dragão Brasil) e capas da Anime Nation (Editora Kingdom Comics).
A partir de 2001 comecei a fazer trabalhos para o exterior, incluindo
uma história (“Face” )para uma editora alemã,
uma mini-série da “Dungeons & Dragons”, uma
edição da Lady Death (“Goddess Returns”
) e também um trabalho feito junto com o desenhista Eduardo
Muller, chamado Dice Land, colorizados por mim e pela Carolina Myllus
que foram lançados este ano na Comicon em San Diego. Para
janeiro de 2003 estaremos assinando a capa da Mangá Tropical.
4- Foi
difícil ingressar nessa área? E onde é mais
fácil arrumar trabalhos, no Brasil ou no exterior?
Sim, foi muito difícil...Infelizmente no Brasil, na maioria
das vezes, você só tem um espaço se tiver indicação.
Muitas vezes eu tinha que chegar em um editor e falar “Ei,
eu consigo fazer isso, passa pra mim” e ouvia como resposta
“Filho...fulano é melhor que você. Vou passar
o trabalho pra ele”. Quando via na banca o resultado final,
eu tinha certeza que teria feito um trabalho melhor. Então
resolvi investir em mim, mudar o meu foco e me concentrar em outras
editoras e também no exterior, principalmente as dos Estados
Unidos. Mas pra entrar no mercado de lá não é
tão fácil como parece. Você precisa ter um trabalho
muito bom.
Eles realmente têm que gostar do você faz, principalmente
porque existe um mercado muito grande e competitivo, e você
tem que mostrar que pode estar nele. Além disso, diferentemente
de alguns editores daqui, eles são realmente profissionais.
5-Você
poderia nos dar uma média de quanto um colorista pode ganhar
por trabalho?
Depende. As editoras brasileiras pagam uma média de 40 reais
por uma página. Por aqui, para você ganhar razoavelmente
bem, precisa trabalhar bastante e em grande quantidade. Em uma editora
americana média, o valor de uma página vária
de 50 a 90 dólares, nas grandes você pode até
ser melhor remunerado mas isso é um pouco relativo e vai
muito do tìtulo e da situação.
6- Quais
são suas principais influências?
Alex Ross, Liquid!, Jonathan D. Smith (“Tomb Raider”
e “Fathom"), Dan Kemp e Brian Haberlin ( “Spawn”).
7- Como
é enviado a Arte que você deve colorir? Você
recebe através de e-mail, te enviam os originais arte finalizados?
Conte-nos como funciona este processo.
Na maioria das vezes, a arte já vem escaneada em um CD, mas
todas em line-art. Quando eu recebo os originais, eles vêm
com algumas instruções sobre o scanner, alguns em
400 dpi outros em 600 dpi. Depende da editora, mas eu normalmente
recebo em line-art.
8-
Agora em relação à parte mais técnica,
quais programas e equipamentos você usa para trabalhar? Além
da colorização digital você usa também
tintas e pincéis?
Eu uso basicamente o Photoshop 6.0. Nele eu criei vários
brushes como folhas, estrelas e vegetação, que me
ajudam bastante durante o trabalho. Algumas vezes, eu uso o Painter
5.0. O meu equipamento é um Pentium 4. Mas antes de encarar
a pintura digital, eu fiz muita coisa manualmente. Trabalhei muitos
anos como ilustrador usando lápis colorido e pincel e mais
tarde comecei a aerografar. Gosto muito de fazer esse tipo de trabalho,
mas em 1997 o mercado começou a pedir uma pintura digital,
pois isso reduz o custo de fotolito. Então, em 98, eu publiquei
meu primeiro trabalho colorido digitalmente para empresa Dana Albarus,
a revista “Danico e os 5S”. Era uma revista de distribuição
interna, com 20 páginas. Demorou pra caramba pra fazer, mas
valeu a pena.
|
|