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1- Bom,
primeiramente, conte nos um pouco sobre você. De onde vc vem,
quantos anos e qual sua profissão?
Bem, eu nasci
no Brasil, no estado do Rio, numa cidade do interior chamada Três
Rios. Fica junto da fronteira do estado do Rio com Minas Gerais
- e é por isso que tenho um sotaque meio estranho. Aliás,
vivi em minas por alguns anos até que minha família
se mudou para Niterói, onde eu fiquei, conheci minha esposa
e moro atualmente. A minha família voltou para Três
Rios, onde eles tem uma fábrica de reparos de vagões
ferroviários. Eu trabalho lá também. Assim
tenho que dividir minha semana entre o trabalho de designer que
faço lá e meu trabalho de designer pessoal, que faço
no meu est;udio na minha casa, e que envolve serviços feelance
e maluquices em geral, hehe. Eu tenho 26 anos, sou formado em Psicologia,
mas sempre trabalhei com design.
2-
Como você aprendeu a dar "vida" a estes personagens,
você fez algum curso ou foi aprendendo sozinho?
É gentiliza
sua dizer que dou "vida" ao boneco. Na verdade eu apenas
esculpi este Yoda para o artigo. A idéia dos artigos surgiu
quando eu conversava com meu irmão André que também
é designer e hoje mora nos Estados Unidos sobre o futuro
da computação gráfica, os novos esquipamentos,
as tecnologias do cinema... Enfim, sobre a indústria multimilionária
em que trabalhamos e amamos consumir que é o design.
Papo vai e papo vem, começamos a notar que a indústria
está passando por uma
profunda alteração na maneira como as coisas são
feitas. Logo que começou a onda
da computação gráfica, milhares de designers
ao redor do mundo se dedicaram à esculpir em 3d, E eu memo
fui ( e em certos aspectos ainda sou) um deles. Novas técnicas
de modelagem e construção de geometria tridimensional
apareceram e isso
se fundiu com o aumento das capacidades de hardware e implementos
de software. Mas o processo de construção digital
apesar de tudo isso se mostrou muito lento para que uma indústria
veloz como a norte-americana consumisse. As necessidades de produção
geraram demandas de tecnologias de escaneamento tridimensional.
E é aí que entra essa idéia dos artigos falando
disso. Eu queria trazer essa realidade para o Brasil. Seria trágico
ver os brasileiros ralando meses para fazer em nurbs algo que hoje
já é feito em algumas horas com modelagem real.
No Brasil ainda está muito embrionária a idéia
da digitalização de peças, mas o fator econômico
é o único impecilho que vejo no momento para a tecnologia.
E assim que isso chegar aqui, haverá demanda por designer
que saibam esculpir. Como esculpir não é dom, magia
nem tàopouco espiritismo, é prática, achei
que fazendo artigos assim eu ajudaria o pessoal aqui a ficar tão
competitivo quanto eles lá fora.
Isso tudo passa por uma série de coisas, sonhos, desejos
anseios. Eu quero que em alguns anos, os diretores de cinema se
toquem que temos pessoal, tecnologia e disposição
para fazer coisas tão boas quanto as que se compra fora,
e aí a indústria que estamos cresça e ofereça
melhores oportunidades. Então, amigos meus compraram a idéia
e eu fiz os dois primeiros artigos para o Marcelo Souza, dono do
portal 3donline. E em seguida outro amigo o Ricardo Nakazawa também
achou legal e colocamos mais um no site da freemind. O apoio desses
caras foi crucial, porque eles tinham sites que eram frequentados
justamente pelo público que planejei atingir.
Mas com relação às esculturas, eu começei
há mais ou menos uns doze anos atrás, fazendo em durepoxi
e esculpindo com agulhas. Na época, o RPG estava em alta
e os bonecos de chumbo similares aos da Citadel, Ral Patha e outros
faziam enorme sucesso no mercado. Uma empresa nacional planejava
iniciar a criação de bonecos de chhumbo com design
100% nacional. Aí eu vi o anúncio numa revista especializada
e me candidatei. Logo para a entrevista eu fiz um Beholder usando
uma bolinha de gudão. O cara quando viu se amarrou e eu entrei
pra firma com meu outro irmão, o Raphael. Infelizmente, a
idéia dos bonecos nacionais não vingou porque o mercado
estava acostumado a piratear peças estrangeiras e por conta
disso, o valor de mercado das peças era baixo demais e pra
piorar, alguns caras idiotas começaram a piratear as peças
nacionais e vendê-las a menos de 1/4 do preço. Então
começaram as greves dos metalúrgicos e a firma afundou.
Os pirateadores faliram a primeira tentativa honesta de criar um
mercado sério aqui... Mas então eu continuei esculpindo,
apenas para meu prazer... E fiz até algumas peças
grandes, como dragões, espadas, armas e monstros para eventos.
Eu nunca fiz curso de nada. Mas eu estudo muito. Metade do meu tempo
( acho que até mais) é dedicado ao estudo da anatomia,
das influências e tendências, novos materiais, história
da arte e tudo mais. Costumo dizer que ser um designer é
como andar de bicicleta na lama. Se você parar de pedalar
e botar o pé no chão, já era.
3- Pelo que
vimos de seu trabalho, suas figuras são sempre cheias de
detalhes. Você tem uma grande preocupação tanto
na modelagem como no acabamento que deve ser uma das partes mais
importantes, não? Quantas horas em média você
leva para produzir um personagem ?
Bem, eu ainda estou aprendendo... Mas lembro bem que no início
eu focava o detalhe. Eu achava que o segredo de uma boa peça
era o detalhamento. Então saturava as peças com muitos
detalhes, muitas coisinhas e penduricalhos. À medida que
fui amadurecendo na escultura comecei a buscar uma perfeição
maior na técnica. Então passei a achar que o segredo
de uma boa peça estava na precisão, na definição
da escultura. Hoje eu passo mais tempo pensando como vai ser. No
planejamento. Hoje eu acho que o segredo de uma boa peça
é o planejamento. É o movimento. O ritimo que a peça
transmite. A capacidade de um montículo de massa transmitir
força ou suavidade me fascina. Meu foco atualmente é
o planejamento. Amanhã pode ser outra coisa. Mas hoje eu
perco mais tempo pensando em peso, estudo, balanço e força
do que esculpindo mesmo. Aliás este vai ser o tema do próximo
artigo de bonecos. Em geral levo seis horas para converter um arame
em um boneco acabado. E mais seis horas para pintar em detalhes
este boneco.
4- Em quais
empresas você já trabalhou? Quais trabalhos você
gostou mais de fazer?
Eu já
trabalhei em muita coisa diferente. Eu já fui entrevistador,
pesquisador, já trabalhei com consultoria, já trabalhei
com desenho técnico, com efeitos especiais, com escultura
de bonecos, com computação gráfica, vendas,
escrevi livro, dei aula, trabalhei com multimída e com filmes.
Hoje trabalho como designer industrial, faço ilustração
freelancer e sou empresário. Gostei de tudo. O que eu menos
gostei foi de desenho técnico. Eu corrigia plantas técnicas
de projetistas. Antes do autocad... O que eu mais gostei foi dos
bonecos, de esculpir, de fazer algo que era uma idéia virar
verdade...É uma cachaça. O cara que experimentar não
vai querer mais largar.
5-
Quais as suas dicas para quem gostaria de se profissionalizar nesta
área? Ela é muito concorrida?
As dicas para
quem quer começar são: Estudo, dedicação
e paciência. Não se faz uma obra prima da primeira
vez. Nem na segunda ou na terceira. Persistência sempre é
recompensada. Conhecer o máximo possível. Ler muito,
estudar muito, produzir incomensurávelmente muito. Tenha
um bom portifólio. Aliás, um bom não. Um ótimo.
Como eu falei no preâmbulo da minha resposta numero um, o
mercado está passando por profundas modificações.
E isso parece ser um processo contínuo e infinito. Hoje,
no Brasil a despeito do que ocorre no resto do mundo, estamos numa
pindaíba de dar pena. É gente demais no mercado. Os
softwares que já eram caros nos Estados Unidos, com a desvalorização
do câmbio, ficou impraticável. Os clientes nacionais
são péssimos. Te dão pouca liberdade. O prório
mercado pervertido provoca a desconfiança geral dos clientes.
Não há mercado suficiente pra todo mundo. A Tv, que
poderia absorver grande parte dessa oferta, nos vira as costas e
perde tempo com programas de baixo nível. Os problemas clássicos
do país são limitantes. A falta de educação
é um circulo vicioso que estimula as tvs ao baixo nível.
O cinema é inexistente por culpa do governo. Não há
uma estrutura mínima para se estabelecer um mercado de efeitos
especiais no país. As produtoras dispoutam com zézinhos
da esquina e sobrinhos adolescentes que "dão uma fuçadinha"
em programas piratas e começam a fazer do design e do 3d
nacional a mesma desgraça que eu vi acontecer anos atrás
no mundo dos bonecos de chumbo...
Mas eu me lembro que quando os organizadores craram o primeiro Animamundi,
não havia sequer um único filme nacional concorrendo.
Era uma mostra internacional. Em poucos anos a coisa cresceu numa
proporção que estamos virando uma potência em
animação. Essa oferta vai se refletir em pouco tempo
nos meios de comunicação de massa do país.
E aí tudo pode mudar coo que por milagre... Mas olhando pra
fente, lá pra longe, eu vejo um futuro dourado para designers
com conhecimentos de 3d, boas influências e domínio
de escultura. É como se eu fosse um surfista. Hoje eu tô
aqui sentadão na prancha olhando o horizonte... Agora o mar
tá paradão. Mas o céu tá escurecido...
Raios cortam o horizonte e algo gigantesco começa a se formar
lá longe... Quem olhar pra frente vai ver. Peguem suas pranchas!!!
Pode ser que venha uma tsunami aí.
6-
Uma pergunta que me fizeram estes dias e eu não tinha a mínima
idéia da
resposta e acho que vc poderá ajudar!! Quanto cobrar pra
modelar um
personagem? E o que tem que ser levado em conta na hora do orçamento?
Talvez esta
seja a pergunta mais difícil que você me fez. Defiição
de preços é algo muito complexo. Você não
qer dar um preço barato demais. Mas se der um preço
alto demais o cliente não faz o trabalho. Bem, a coisa passa
pelo fator projeto de maneira decisiva. Suponha que um cliente lhe
peça um personagem oriental como um pokemón simplório.
É basicamente uma bolinha. Se você vai e cobra "os
tubos da grana" o cliente não só não fará
o serviço como tam,bém vai te queimar no mercado.
E fama meu amigo, boa ou má se espalha rápido. Mas
se vc cobra barato demais, muito aquém do que o cliente espera,
ele desconfia, fica com medo e perde a confiança no seu trabalho.
Muitas vezes o cliente passa não dar vaor porque foi barato.
Sei que é ridículo isso, mas acontece. Eu já
vi!
Assim, eu uso
o seguinte método para definir o valor de uma escultura comissionada.
Primeiro eu faço uma rápida entrevista com o cliente
sobre o que ele quer. A partir da entrevista você terá
noção de quanto tempo leva pra esculpir, quanto material
vai consumir, e a faixa de valor da peça. Algumas vezes a
peça será duplicada. Nesse caso, deve incidir um valor
maior sobre a matriz, pois o cara vai ganhar várias e várias
vezes com o trabalho. Um dado importante é registrar seu
design. Pra isso é legal conhecer um bom advogado. Eu registro
meus designes no INPI. Aliás, já processei neguinho
que me plagiou e ganhei um bom dindim.
Em outros casos, o pedido é meramente de design conceitual.
O cara quer ver o boneco que ele criou e aprensentar para um cliente.
( coisa bem comum com agências de publicidade) Aí o
valor é menor, pois a peça não será
duplicada. O que eu faço para definir um preço é
mensurar o tamanho da peça e o custo material da mesma. Isso
você pega com a prática. Vc passa a bater o olho e
saber quanto vai custar pra fazer. Aí você define quanto
custa seu tempo. Isso é uma questão pessoal. Ela é
definida com base nos seus conhecimentos, vivência, experiência
e habilidades. Suas horas de cadeira, suas noites mal-dormidas,
suas noites não dormidas, o peso técnico de seu portifólio
seu tempo de estudo, sua dor nas costas... Chegando ao valor da
sua hora técnica, multiplique pelo valor estimado de horas
que uma peça leva pra ser feita e adicione o valor do material.
Aí em cima disso coloque seu lucro. Lembre-se. Lucro não
é pecado. Lucro é a base inexorável do mercado
capitalista. Sem lucro não há motivação.
Sem motivação não há prazer. E sem prazer
não sai nada... Peças com efeitos especiais custam
obviamente mais caro. Não estou dizendo para você meter
a mão no bolso do cara, hein? Seja coerente. Cobre o valor
justo pelo seu trabalho. Mas em geral, cada caso é um caso.
7- E quanto à animação em Stop Motion, vc
gosta? Já fez algum trabalho com esta técnica? Há
um tempo atrás aluguei alguns filmes feitos com esta técnica.
Eram "Fuga das Galinhas" e "O Estranho Mundo de Jack"
, vc assistiu? O que achou da animação? Eu particularmente
gostei muito do "Fuga.."
Eu amo o Stop
motion desde que vi ( me lembro como se fosse hoje) em meio a uma
tempestade de neve Luke Skywalker cavalgando um Tauntaun... Aquilo
mexeu com a minha cabeça de uma tal maneira que até
hoje me impressiono com a força que "O império
contra ataca " exerceu na formação da minha personalidade.
Eu comecei a estudar a técnica. Desde sua história.
Estudei a fundo as técnicas de Harry Hausen... Já
fiz experiências com stop motion. Aqui vai uma imagem do boneco
que fiz para stop motion que usarei para meu curta "Final Countdown"
que atualmente está na fila aguardando para ser filmado.
Deverá ser minha prmeira produção em película
e já reuni boa parte da equipe. Os bonecos estão sendo
feitos. Como se pode ver, é m boneco bem complexo. animar
isso satisfatóriamente requererá muito esforço.
Recebi apoio de produtoras como a "Moleque de Idéias"
aqui de Niterói e ao que parece a Universidade Estácio
de Sá deve colaborar na idéia, pois alguns integrantes
da equipe são de lá.
Estou estudando em profundidade as técnicas da Aardman, que
fez " Chicken Run" e Wallace e Gromit. paralelamente a
este projeto estou escrevendo um livro que se chama: "Do design
conceitual ao filme animado - Uma análise prática
da produção de bonecos conceituais" E que vai
focalizar justamente em prfundidade a criação dessas
peças. E vai até a criação passo a passo
de uma animação. O mais legal é que vou colocar
um cd no livro com a animação e com programas free
que permitem ao leito experimentar a animação em stop
motion. Espero ser bem sucedido nisso. Já comecei a escrever.
Atualmente tenho duas editoras interessadas, mas não tem
nada acertado. Eu ainda estou avaliando as propostas. O sucesso
dos artigos na internet foram cruciais para a idéia do livro.
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