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Entrevista: Júlio Moreno
Júlio
Moreno é
certamente uma das figuras mais importantes do mundo do mangá no
Brasil do último ano. Aos 32 anos, o Diretor Geral da editora JBC
é jornalista, formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.
Também se formou em Direito pela Mackenzie, mas seu grande sonho
de infância sempre foi atuar na área de jornalismo. Trabalhou na
TV Mix, na Folha de São Paulo, na editora Abril em diversas áreas
como Plaboy, Quatro Rodas, Veja São Paulo, Boa Forma entre outras,
até que foi para a Made in Japan da editora JBC. Chegou a morar
três anos no Japão, onde começou seu interesse por histórias em
quadrinhos japoneses.
Sempre detalhando muito suas respostas, Júlio fez um breve apanhado
de quais as perspectivas futuras para o mangá no Brasil e o sucesso
das revistas e dos mangás da JBC, como Made in Japan, Henshin, Samurai
X (Kenshin), Sakura, Guerreiras Mágicas de Rayearth e Video Girl
Ai.
1- Como surgiu
a idéia de fazer uma revista como a Henshin que é bem diferente
do estilo Made in Japan?
Bom, a história da JBC é bem particular. O dono da JBC é japonês.
A JBC é uma editora japonesa, capitou japonês, matriz em Tóquio.
E este japonês veio para o Brasil com 18 anos, não entendendo nada
da língua portuguesa. Nos dois primeiros o que tornou a vida dele
"aceitável" até ele conseguir aprender português foram os jornais
japoneses. Ele diz que tem muita gratidão ao Brasil, ao povo por
ter tido isso, já que foi em um período pós guerra e ele sabia dos
amigos dele que nos Estados Unidos não tinham isso, que proibiu
qualquer coisa do Japão. Ele se tornou empresário, ganhou muito
direito aqui no Brasil. E ele disse que assim que puder iria retribuir
isso ao Brasil. (...) Ele lançou o jornal Tudo Bem no Japão, que
é o maior jornal em língua portuguesa fora de um país que não fala
língua portuguesa. Então há quatro anos ele lançou a Made in Japan,
que foi uma revista que deu super certo.
Bom, a proposta e filosofia da JBC é fazer a ponto entre Brasil
e Japão. Aproximar estes dois povos. Inicialmente, a gente pensou
em fazer revista de Ikebana, origami. E a gente percebeu que via
desenho japonês nós podíamos fazer um trabalho muito bacana, que
é divulgar a cultura japonesa na sua essência mais básica, como
as criança e os jovens estão vendo o mundo. Se você está vendo um
mangá hoje, você está vendo exatamente o que é a cabeça japonês.
Em um mangá você até pega um pouco do que é a cultura. Então a gente
fez uma coisa que trouxesse a cultura, fizemos alguns testes na
Made in Japan, lançamos umas duas ou três capas de animês e mangás
para sentir e então decidimos lançar (Henshin).
2- Vocês
pretendem ampliar a família Henshin com outras publicações?
Não é uma coisa fixa, mas a intenção é fazer sempre uma Henshin
especial temática.
3- A idéia
dos mangás partiu do Brasil para o Japão ou vice-versa?
A empresa aqui é muito interligada, não existe essa coisa Brasil
- Japão, a gente funciona em conjunto. Tanto que quem trabalha aqui
vai muito freqüentemente para o Japão. Tem muito esta coisa de ficar
indo e vendo, de trocar informações.
4- Na partiu
de um lugar específico?
Não, não. Foi uma coisa interligada. Na verdade foi mais do Brasil
que falar o que quer e quais os títulos e do Japão negociar.
5- Quais
deles estão fazendo mais sucesso?
Na verdade empata, obviamente que a gente já previa que Samurai
X e Sakura, que tem haver com Sakura estar na TV e Samurai X pela
fama. Os dois estão realmente empatados, é uma coisa muito próxima,
diferença mínima, uma coisa muito pequena. Agora, eu acredito que
Sakura está na Globo, Samurai está fora do ar. Samurai entrando
no Cartoon deve passar. Se Samurai entra em um canal aberto, Samurai
estoura. O título Samurai é mais forte.
6-
Qual foi o critério para a escolha dos quatro mangás?
Bom... primeiro Samurai X todo mundo aqui na editora adora (risos).
E de saber que o pessoal gosta muito. Sakura por nós acompanharmos
o mercado japonês quanto americano e saber que era... que a gente
sabia quando fechou que era um título que ia chegando. Samurai nós
sabíamos que ia vender, Sakura foi apostando no futuro. Nós sabíamos
que em algum momento ia entrar na TV. Para nossa sorte foi na Globo.
Rayearth já passou SBT e tem muitos fãs. A gente sente que têm muitos
fãs de Rayearth. Outra coisa é que Sakura é mais feminino e Samurai
é mais masculino, Rayearth não é um história 100% feminina. No Japão
aparece como 100% feminina mas aqui é bem mista. E Video Girl foi
aposta mesmo.
7- Foi tiro
no escuro?
Não. A gente fez muito estudo, muita pesquisa, de mostrar produtos
e formatos. Há uma teoria aqui no Brasil que o que não passa na
TV não vende. E nós particularmente não acreditamos. A gente quis
apostar. E o trabalho é de uma qualidade impressionante. O traço
é sensacional, e quando acaba você fica com uma raiva, "e o que
acontece depois?"
8- E porque
Video Girl Ai e não Ah My Godness ou Evangelion que são mais conhecidos
que Video Girl?
Então, foi exatamente aquilo que te falei. Foi uma coisa de apostar.
São decisões empresariais. A grande diferença da JBC é que por ela
ser japonesa, ela tem uma programação muito a longo prazo. Aqui
não é pensado mês a mês.
9- Os mangás
todos vocês estão com uma visão a longo prazo?
Totalmente. Esta é a principal diferença entre nós e as outras editoras.
Com todo o respeito, elas estão fazendo um trabalho super bacana,
mas todas elas são visando um título que dê dinheiro. Aí você perguntou
por que não Evangelion? É óbvio que Evangelion ia vender mais que
Video Girl Ai. É óbvio que ia vender mais. Agora, a nossa decisão
foi exatamente esta, apostar em uma coisa de longo prazo. E a outra
coisa é que estamos fazendo com parceira com estas editoras japonesas,
não estamos indo lá e comprado os títulos. Nós temos uma relação
de parceria. Nós somos uma empresa japonesa trabalhando com outras
editoras japonesas.
10- Porque
os mangás não chegaram até agora nos outros estados do eixo Rio-
SP? É um problema da distribuidora, da editora...
Não é problema de ninguém na verdade. Foi uma opção do plano de
negócios mesmo. Quando nós planejamos, por nós não termos apostado
em títulos não tão Best Sellers, se saíssemos para fazer uma distribuição
nacional, chegar com um produto no Maranhão ou Amazonas custa muito.
E lamentavelmente, a venda lá é muito inferior. São Paulo e Rio
de Janeiro respondem por quase 70% das vendas de qualquer produto
hoje em dia. São Paulo e Rio é onde está a grande população consumista
do Brasil. Nós fizemos lançamos em fases porque para lançar os produtos,
nós precisávamos do adiantamento da grana. E o adiantamento de um
título destes é uma bolada e os números são todos em dólares. Então
a gente paga muito, muito caro para ter estes títulos aqui no Brasil.
Se nós arriscássemos colocar no Brasil inteiro, correríamos o risco
de estar lançamento e parando ou começar a interromper a seqüência
do mangá. Então a gente optou em fazer no Rio e São Paulo porque
você tendo mais mangás nas bancas, consequentemente você vende mais.
É fato, isso é provado.
Agora estamos recolhendo e no começo de setembro deve estar chegando
no Brasil inteiro. E a partir daí, a idéia é estar regularizando.
E como nós optamos por esta distribuição em fases, nós não podemos
distribuir nem que a pessoa pague. A gente não pode vender por assinatura.
11- Vocês
não têm plano de assinatura?
Por enquanto a gente ainda não tem por causa do contrato. Então
foi uma decisão conjunta da nossa editora do Japão, dos donos dos
direitos no Japão porque eles ganham sobre vendas, pelo escritório
aqui e pela distribuidora. Apesar de todo mundo não ter simpatia
por esta medida. É óbvio que não é uma medida simpática. É triste
porque a gente esta priorizando pelo critério geográfico.
12- Considerações
finais.
A JBC como editora não vê os fãs como meros consumidores. A gente
não é uma editora caça níquel. Nós somos uma editora com um projeto
de trazendo mangá a longo prazo. Nós não estamos de brincadeira.
Tanto que ninguém lança quatro mangás e estar de brincadeira, nós
podíamos ter lançado um mangá...
13- Agora
que você falou de lançamento, vocês vão continuar colocando Kenshin
separado das outras?
(risos) Faz parte de todo este projeto que já é uma coisa idealizada.
Então, a gente começou lançando todos juntos para mostrar que nós
somos uma editora séria, que não estamos de brincadeira e estamos
nesta área. O formativo do mangá é 100% o formato japonês, o papel
do que a gente achou do Brasil é o mais próximo. Muita gente fala
que isso é papel jornal, isso não é papel jornal. É o mais próximo
do Brasil que chegou. A gente sabia que tem público de mangá para
o Brasil e se nós colocássemos estes mangás mais caros, nós ganharíamos
mais dinheiro e estaríamos funcionando do mesmo jeito. Que ia vender
do mesmo jeito. Ninguém deixaria de comprar por causa de um real.
Então nós fizemos uma opção em respeito aos fãs. Nós respeitamos
os fãs e nós queremos ter vida longa como uma empresa em parceria
com os fãs. Se eles continuarem apostando em nossos produtos, nós
vamos continuar existindo por muitos e muitos anos. Nós não temos
a melhor pretensão de interromper. Até os mangás menores - que hoje
estão todos se pagando -se acontecer de eles entrarem no vermelho,
o plano é que estes que vendam mais paguem. Então já foi coisa toda
estruturada para isso.
14- Certo.
Mas Kenshin vai continuar saindo separado?
Kenshin a partir de agora vai ser quinzenal. (risos) Todo este primeiro
passo foi uma coisa de estar montando toda uma estrutura. A gente
preferiu fazer uma coisa consciente e devagar.
Sandra
Monte No mundo dos mangás e animês há seis anos, participou de eventos,
cursos sobre dublagem, fez cosplay, matéria para revista AnimeDo
2000 e hoje faz parte da Equipe Netmals.
E-mail: monte@escritor.zzn.com
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